Violência Obstétrica – Saiba o que é e como denunciar

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO PARTO

O número de mulheres que sofre violência obstétrica no Brasil cresce a cada dia e se torna cada vez mais alarmante. (imagem daqui)

Desde que engravidei pela primeira vez sonhei com um parto normal, mas como nem tudo é como sonhamos, meu primeiro parto foi uma cesárea eletiva. Então engravidei de novo e estava convicta de que teria meu tão sonhado parto normal. Justamente nesta época foi que começaram a falar com maior afinco sobre parto humanizado, mas confesso que por mais que tentasse me informar a respeito, tudo que lia era que para um parto humanizado ou você tinha que parir em casa ou ter uma doula o tempo inteiro do seu lado na maternidade. Hoje (graças a Deus) sei bem que o parto humanizado está longe de ser apenas isso.

Mas na época, onde minha condições financeiras não eram as melhores, abandonei logo a ideia de ter um parto humanizado, mesmo assim não desisti de ter meu parto normal, o que eu não fazia ideia era que pra ter um parto normal (ou não) com respeito, a humanização dos profissionais da saúde devia estar presente, e isto sim, é ter um parto humanizado. Caio nasceu, de um parto normal induzido, e eu fiquei imensamente feliz por ter conseguido, na hora sequer pensei em todos os procedimentos do parto, porque pra mim eram só isso mesmo, procedimentos, nunca me vi como vitima ou me enxerguei menos protagonista do meu parto, mas confesso que hoje, muitos dos procedimentos pelos quais passei me incomodam profundamente, os maiores deles, foram: a proibição de um acompanhante ao meu lado  antes, durante e após o parto e a ordem da técnica de enfermagem ao ver meu filho coroando: “para de fazer força se não ele vai nascer aqui mesmo” (no pré-parto).

E qual não foi minha surpresa a ao relatar meu parto para uma amiga e ela soltar uma afirmação: “você sofreu violência obstétrica“, como assim, tinha sofrido violência obstétrica e sequer sabia disso? Foi então que resolvi me aprofundar sobre o assunto e descobri um dado que me chocou: uma em cada quatro mulheres sofrem violência obstétrica seja durante a gestação, no parto ou no pós-parto.

É isso mesmo, a violência obstétrica não acontece apenas durante o parto, ela pode ocorrer antes ou depois dele. Mas afinal, você sabe o que é violência obstétrica?

A violência obstétrica segundo a Cartilha do Órgão de Defensoria Púbica do Estado de São Paulo é a apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais da saúde, ou seja, quando a mulher é privada do direito de escolher o que é melhor para si mesma. A violência ocorre quando a mulher é exposta a tratamentos desumanos, abuso de medicalização (processo pelo qual o modo de vida do individuo é apropriado pela medicina) e patolização (atribuir doença ou anormalidade, mesmo não existindo) dos processos naturais. Fazendo com que desta forma ela perca sua autonomia de decidir de forma livre sobre o que é melhor para si mesma e para seu corpo.

Como ocorre a violência obstétrica na gestação?

Na gravidez a violência obstétrica normalmente ocorre durante o pré-natal. Toda gestante tem direito a um pré-natal digno e respeitoso, mas não é isso que acontece na maioria dos casos. Veja quando você pode sofrer violência durante a gravidez:

  • negar atendimento ou impor dificuldades ao atendimento em postos de saúde onde são realizados o acompanhamento pré-natal;
  • comentários constrangedores a mulher, por sua cor, raça, etnia, idade, escolaridade, religião ou crença, condição sócio econômica, estado civil ou situação conjugal, orientação sexual, número de filhos, etc.
  • ofender, humilhar ou xingar a mulher ou sua família;
  • negligenciar um atendimento de qualidade;
  • agendar cesárea sem recomendação, baseado em evidências cientificas, atendendo ao interesse e conveniência do médico.

A violência obstétrica no parto:

A violência obstétrica normalmente tem inicio quando a mulher é proibida de ter um acompanhante seja antes, durante ou após o parto, no Brasil esse direito é garantido as mulheres por Lei, e vejam só, a Lei que vigora desde 2005, ainda não é respeitada por alguns hospitais e maternidades. Caio nasceu em 2014 e mesmo assim me proibiram de ter um acompanhante na hora em que fui internada.
lei 11.108 transcreve que a mulher tem direito a um acompanhante, não importando parentesco ou sexo.

As formas mais comuns de violência obstétrica são:

  • recusa de admissão na maternidade ou hospital;
  • impedimento do acompanhante;
  • Procedimentos como: soro com ocitocina para acelerar o trabalho de parto por conveniência médica, episiotomia, exames de toques excessivos, imobilização de pernas e braços ou privação de alimentos ou movimentos;
  • cesariana sem indicação ou consentimento da mulher;
  • toda ação verbal ou qualquer tipo de comportamento que cause sentimento de inferioridade, vulnerabilidade, abandono, instabilidade emocional e medo;
  • impedir ou retardar o contato do bebê com a mulher.

A violência obstétrica é mais comum do que a gente imagina e pode levar a consequências muito sérias, como a depressão pós-parto. Um parto digno, não importa se normal ou cesárea, um tratamento digno e respeitoso é o que todo ser-humano merece.

Quando descobri que havia sofrido violência, percebi que isso devia ser mais comum do que eu imaginava e que muitas mulheres (como eu) não fazem ideia de que podem ter passado por isso ou se consideram sortudas porque no final tudo acabou “bem”.

“Afirmar que tive sorte seria como dizer que “tudo bem outras mulheres passarem pelo que passei, faz parte”. Não, eu não quero que outras mulheres lhe tenham negado seus direitos, que outras mulheres sejam forçadas a aceitar esse ou aquele modo de parir, que lhe digam que ela não pode, que não consegue, que não pode escolher. Essa é uma realidade que eu espero ver mudada. E com urgência!” , esse desabafo foi feito pela Mari do blog Caderninho da Mamãe, no seu relato sobre a violência sofrido antes e durante o seu parto.

Para denunciar a violência obstétrica você deve exigir uma cópia do seu prontuário no hospital ou maternidade, este documento lhe pertence e o hospital não pode e não deve cobrar nenhuma taxa além do valor da cópia das folhas, procurar pela defensoria pública, independente se você usou a rede privada ou não ou ainda ligar 180 ou 136.

Para que as mulheres possam ser tratadas com respeito é importante que saibamos reconhecer e denunciar a violência. Nesta terceira gestação, não estou a procura apenas de profissionais que façam meu parto, mas sim profissionais que respeitem meu corpo, meus desejos e minhas decisões, que acima de tudo sejam realente humanos.

Beijos

Fonte: Defensoria Pública do Estado de São Paulo

Author: Débora Nunes

idealizadora do amaecoruja.com, 31 anos, mãe da Clara, do Caio, e da Olívia! Entusiasta da maternidade real acredita que toda mãe deve se dedicar aos seus filhos sem deixar seus demais papéis (mulher, profissional, esposa, amiga, filha...) de lado.

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